Saúde

Seletividade alimentar e autismo: entenda a relação

Condição impacta cerca de 80% das crianças com TEA e apresenta diferentes riscos à saúde

quarta-feira, 02 de abril | 2025
A imagem mostra um bebê sentado em uma cadeira de alimentação, vestindo uma roupa cinza com estampas de corações e um babador verde. O bebê está sendo alimentado por uma criança mais velha, que estende a mão para oferecer um pequeno pedaço de comida. A criança mais velha usa uma camiseta cinza e está sentada à mesa da cozinha, que tem um tampo de madeira clara. O fundo da imagem mostra armários de cozinha bege com puxadores metálicos. O ambiente é iluminado naturalmente, sugerindo um momento cotidiano e familiar; seletividade alimentar
Saiba qual impacto da seletividade alimentar no desenvolvimento infantil. / Foto: Pexels

A seletividade alimentar é uma das principais condições que afetam pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), presente entre 40% e 80% das crianças diagnosticadas. Em março, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado Federal aprovou o Projeto de Lei (PL) que estabelece a terapia nutricional à pessoa com TEA. A medida visa facilitar o acesso ao tratamento adequado para essa condição, que pode trazer sérios riscos à saúde. A aprovação do PL 4262/2020 é um marco significativo, especialmente em comemoração ao Dia Nacional de Conscientização sobre o Autismo, celebrado neste 2 de abril.  

A seletividade alimentar é uma preferência por certos grupos alimentares e a rejeição de um ou mais alimentos. Para aqueles que sofrem com essa condição, o padrão é um repertório alimentar considerado limitado, com pouca variedade de comidas. Uma das consequências é a deficiência nutricional, que resulta em uma carência de nutrientes e vitaminas, afetando à saúde física e emocional dos pacientes.  

Seletividade alimentar e o autismo 

Apesar da seletividade alimentar impactar diferentes pessoas, essa condição é muito comum em indivíduos com TEA. Segundo a nutricionista e pesquisadora da PUCRS, Cátia Machado, doutoranda em Pediatria e Saúde da Criança pela Escola de Medicina, um dos fatores que contribuem para essa relação é o aspecto sensorial – a percepção de cheiros, cores, gostos e texturas. Isso ocorre devido à hipersensibilidade sensorial característica do TEA. Outro fator são os padrões e rotinas. Cátia explica que pessoas com TEA frequentemente preferem seguir padrões fixos e necessitam de maior previsibilidade.  

“A introdução de novos alimentos pode representar uma quebra dessa rotina, gerando ansiedade e resistência à mudança”, diz a doutoranda orientada pela professora da Escola de Ciências e Saúde da Vida, Caroline Abud Drumond Costa.  

Além disso, problemas na regulação sensorial e motora, bem como experiências negativas, como engasgos ou desconfortos digestivos, e a escolha por certas características semelhantes, como cores monocromáticas, temperaturas e texturas – crocantes, secas ou macias – também restringem a dieta alimentar a poucos itens. 

Impacto no desenvolvimento infantil

Para a pesquisadora, uma das principais complicações da seletividade alimentar é o impacto no desenvolvimento. “Essa condição pode afetar significativamente o crescimento de crianças e jovens com TEA de diversas maneiras, tanto no âmbito nutricional quanto no cognitivo, emocional e social”.  De acordo com Cátia, os déficits nutricionais podem causar a deficiência de vitaminas e minerais essenciais, como ferro, cálcio, zinco e vitamina D. “Pode haver consequências no sistema imunológico e no desenvolvimento ósseo, além de um maior risco de distúrbios gastrointestinais, como constipação e refluxo, em razão da dieta pouco variada.” A falta de nutrientes ainda pode influenciar as funções cerebrais, prejudicando o aprendizado, a concentração e a memória.  

Da mesma forma, os riscos de baixo peso e obesidade são preocupações para os profissionais. Uma ingestão alimentar restrita pode levar à desnutrição, enquanto o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados – ricos em açúcares e carboidratos – aumentam as chances de obesidade

Os danos também se estendem ao comportamento. “O déficit de nutrientes pode intensificar as dificuldades na regulação emocional, aumentando a irritabilidade, a ansiedade e as crises sensoriais, assim como, reforçar padrões rígidos e dificuldades de adaptação às mudanças”, comenta a nutricionista.  

A seletividade, além de tudo, afeta a saúde mental, causando estresse emocional e dificultando a socialização. Isso faz com que muitas famílias evitem eventos sociais que envolvem alimentação, como festas. Além disso, a resistência em experimentar novas comidas ainda pode comprometer uma autonomia alimentar na adolescência e na vida adulta.  

Como lidar com a seletividade alimentar?

A seletividade alimentar causa diversos prejuízos à saúde. Por isso, o acompanhamento profissional é fundamental. Independe do grau de severidade, o suporte multidisciplinar pode proporcionar uma melhora na qualidade de vida, ajudando a garantir uma alimentação equilibrada, a aceitação de novos alimentos e reduzir os impactos no desenvolvimento.  

“A seletividade alimentar no TEA não é apenas uma questão de ‘gosto’ ou ‘vontade’. Mas sim um desafio que envolve fatores sensoriais, comportamentais e nutricionais. O trabalho conjunto entre diferentes profissionais garante uma abordagem personalizada e mais eficaz, promovendo o bem-estar da criança e melhorando sua qualidade de vida”, enfatiza Cátia.   

O tratamento adequado envolve a orientação de nutricionistas, que avaliam o estado nutricional e os hábitos alimentares, sugerindo estratégias para garantir o aporte nutricional e ampliar o cardápio de forma gradual; de terapeutas ocupacionais, que trabalham questões sensoriais; de fonoaudiólogos, que auxiliam na mastigação e deglutição; e de psicólogos, que amparam o paciente nas crises de ansiedade e comportamentais relacionadas à alimentação. Em casos mais severos, gastroenterologistas também podem ajudar, investigando possíveis problemas gastrointestinais que agravam a seletividade alimentar.  

Como as famílias podem ajudar?

Lidar com essa condição exige compaixão e consistência. Em suas rotinas, famílias podem trabalhar para tornar o ambiente e a hora das refeições em um momento alegre, sem pressões e punições em troca. Variar a apresentação dos pratos, cores e texturas, com diferentes formas de preparo – como assados, batidos, cozidos e crus – e formatos podem tornar a experiência mais atrativa para as crianças. 

Outras estratégias incluem a introdução sem forçar a ingestão imediata, permitindo o contato visual e estimulando a interação, como cheirar, tocar e levar à boca, por meio de incentivos lúdicos. É importante também realizar as refeições sem distrações, como celulares, televisões e tablets, além de estar junto para servir como um exemplo.  

“Pode ser desafiador, mas com paciência e intervenção adequada, é possível ampliar a aceitação alimentar e garantir uma nutrição mais equilibrada. O mais importante é respeitar o tempo da criança e evitar conflitos que possam reforçar a aversão aos alimentos”, afirma a pesquisadora.  

Acesso ao tratamento adequado

A aprovação do PL 4262/2020 representa um avanço significativo para os indivíduos com TEA. O Projeto especifica a terapia nutricional, que abrange ações de cuidado e proteção relacionadas à alimentação, e assegura que o tratamento gratuito seja realizado por um profissional da área da saúde qualificado.  

“O Projeto reforça a responsabilidade do Sistema Único de Saúde em oferecer um cuidado integral e especializado às pessoas com TEA. Essa medida também destaca a importância de compreender os desafios alimentares específicos enfrentados por essa população, promovendo abordagens mais direcionadas e eficazes, além de contribuir para a consolidação de políticas públicas que atendam às necessidades únicas das pessoas com TEA”, comemora Cátia. 

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