Por Ir. Marcelo Bonhemberger, vice-reitor da PUCRS
terça-feira, 18 de março | 2025O título Máquina Demasiada Máquina faz uma alusão intertextual com a obra Humano, Demasiado Humano, de Friedrich Nietzsche, convidando-nos a refletir sobre o papel das tecnologias em nosso cotidiano. Assim como Nietzsche questionava o excesso de racionalidade que, segundo ele, ameaçava a essência humana, hoje nos vemos diante de um novo desafio: conviver com tecnologias que já não apenas nos servem, mas que começam a formular ideias, analisar, sugerir e influenciar. E se isso já impacta aspectos da vida social, o que dizer da Educação Superior, que deveria ser, por excelência, o espaço do pensamento crítico, da criatividade e da formação humana. Essa preocupação esteve presente nas discussões do SXSW Edu 2025, um importante encontro global sobre o futuro da educação. Em meio às reflexões, emergiu uma pergunta inquietante: ao conceder funções e decisões às máquinas, estaremos nos tornando mais do que humanos ou, paradoxalmente, menos humanos?
Especialistas em futuro do trabalho, Piscione e Drean, no livro Employment is Dead, alertam que as transformações tecnológicas não se limitam à introdução de novas ferramentas; elas modificam o próprio sentido do trabalho e, com isso, desafiam a missão da universidade. Muitas profissões que conhecemos hoje tendem a desaparecer ou a ser transformadas. O ensino superior precisa ir além da incorporação da IA e focar em algo específico: a formação de competências humanas, como a criatividade, a empatia e a capacidade crítica. Afinal, que sentido faz preparar estudantes para um mercado que talvez não exista mais?
Complementando essa visão, a neurocientista Anne-Laure Le Cunff, que participou como conferencista no primeiro dia do SXSW Edu, propõe em seu livro Tiny Experiments uma abordagem que dialoga com o conceito de mentalidade experimental apresentado no evento. Em vez de revoluções ou soluções prontas, Le Cunff defende o impacto das pequenas experiências, dos passos conscientes e progressivos, que permitem aprendizado contínuo. Inspirada na ideia de que “a curiosidade é mais poderosa do que a certeza”, a autora sugere que, ao invés de adotar a inteligência artificial (IA) de forma automática e sem reflexão, as universidades poderiam desenvolver experimentos pedagógicos, ações testadas em sala de aula que ajudem professores e estudantes a explorar o potencial e os limites da tecnologia. Esses experimentos poderiam incluir, por exemplo, projetos que combinem o uso da IA com discussões críticas sobre suas implicações éticas, rodas de conversa sobre os impactos sociais e humanos da automação, ou desafios criativos em que humanos e máquinas cocriem soluções de forma colaborativa. Alinhada ao conceito de curiosidade sistêmica, Le Cunff defende que esse processo deve ocorrer sem julgamento ou pressa por respostas definitivas, permitindo que a comunidade acadêmica observe, reflita, aprenda com os erros e adapte suas práticas continuamente.
A fundadora do Social Health Labs, Kasley Killam, traz o olhar da importância das relações humanas. Para Killam, a saúde social, a qualidade das conexões que estabelecemos com os outros, é tão importante quanto o conhecimento ou as habilidades técnicas. Em uma era em que interagimos mais com telas do que com pessoas, e em que IA pode ensinar, corrigir e avaliar estudantes, há um risco real de que o aprendizado se torne frio, solitário e desumanizado. Killam lembra que aprender é, antes de tudo, uma experiência de troca, de diálogo e de construção coletiva. Assim, as universidades devem zelar para que a tecnologia não apague a dimensão relacional da aprendizagem, mas que, ao contrário, possa fortalecê-la.
O FTSG 2025 Tech Trends Report reforça o tamanho do desafio, ao apresentar um panorama das tendências que estão moldando o futuro próximo. Entre essas inovações, chama atenção o conceito de Living Intelligence, sistemas inteligentes capazes de aprender e evoluir sem intervenção humana direta, a partir da combinação de IA, biotecnologia e sensores. Surgem ainda os Large Action Models (LAMs), capazes de ir além da geração de linguagem, passando a realizar ações concretas com base em dados. A Agentic AI, por sua vez, cria sistemas com poder de decisão autônoma, e os robôs inteligentes saem das fábricas para circular em ambientes cotidianos, enquanto metamateriais reinventam o setor da construção. A tudo isso, somam-se alianças globais entre empresas de tecnologia, resiliência climática, o ressurgimento da energia nuclear, o avanço da computação quântica e os projetos de exploração espacial.
Assim, ao refletir sobre esses aspectos, somos levados de volta a Nietzsche. Se ele, no século XIX, já nos chamava a criar nossos próprios caminhos em um mundo dominado por sistemas sem propósitos, hoje a questão parece ainda mais urgente: como usar as máquinas sem nos tornarmos demasiadamente máquinas? Essa é, sem dúvida, a grande questão do nosso tempo. E a resposta, se existir, vai exigir coragem, empatia, reflexão crítica, letramento digital e uma capacidade de recolocar o humano no centro da educação e da inovação.
FUTURE TODAY STRATEGY GROUP. FTSG 2025 Tech Trends Report. [S.l.]: Future Today Strategy Group, 2025. Disponível em: https://www.futuretodayinstitute.com/2025-tech-trends. Acesso em: 12 mar. 2025.
KILLAM, Kasley. The art and science of connection: why social health is the missing key to living longer, healthier, and happier. New York: Harper One, 2024.
LE CUNFF, Anne-Laure. Tiny experiments: how to live freely in a goal-obsessed world. New York: Avery Publishing Group, 2025.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Tradução: Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017.
PISCIONE, Deborah Perry; DREAN, Josh. Employment is dead: how disruptive technologies are revolutionizing work. Boston: Harvard Business Review Press, 2025.