Mistura de ritmos, cores e costumes, o Carnaval se consolidou como a maior festa popular do país. Apesar de sua origem na antiguidade europeia, no Brasil a comemoração é uma expressão da cultura afro-brasileira. Mas, afinal, qual a história do Carnaval?

Carnaval

Registro de um Carnaval de 1928 em Caxias do Sul/RS Foto: Arquivo Delfos

De acordo com o historiador Charles Monteiro, professor da Escola de Humanidades da PUCRS, a origem da festividade remonta da Roma Antiga. “Não é fácil decidir sobre o ponto de partida das tradições, que geralmente resultam da transformação de rituais anteriores. Mas podemos considerar a Lupercália (antiga festa romana), celebrações que ocorreram na Roma Antiga em meados de fevereiro, como o início do Carnaval”, afirma.

Ainda segundo o professor, o início da festa no Brasil ocorreu durante o período colonial no século XVI, através do Entrudo. “Naquele momento, as autoridades relaxavam a vigilância e permitiam a folia, que reunia homens e mulheres das classes populares, muitos deles escravizados, mas também os libertos e os representantes de camadas médias. A festividade ocorria como forma de compensação para uma sociedade extremamente hierarquizada, rígida e autoritária baseada na escravidão e no patriarcalismo que impunham múltiplas restrições à liberdade”, conta Monteiro.

União de jogos e brincadeiras, o Entrudo marcava o período de introdução da Quaresma. Monteiro também destaca a importância do cristianismo para a consolidação da tradição carnavalesca. “Segundo o historiador Gilles Bertrand, o cristianismo desempenhou um papel importante no estabelecimento de um período de Carnaval. Por volta do ano 1000, uma temporalidade cristã começou a se impor, separando estritamente um período de prazeres da carne/do corpo e dias magros de jejum e resguardo do corpo. A época do Carnaval, portanto, flutua, porque se alinha com a festa da Páscoa e da Quaresma, fixada em quarenta dias a partir do século VIII”, ressalta.

O Carnaval como conhecemos

Foi a partir da década de 1910 que o surgimento do samba começou a embalar a comemoração, avançando para a formação das escolas em 1922. Em paralelo, continuaram a existir os blocos populares irreverentes de rua, os desfiles de carros alegóricos e as festividades privadas em clubes. Monteiro conta que, a partir deste momento, o Carnaval começou a se formar como conhecemos. “Nessa época, o Estado Novo organizou rigidamente a festa, originando a forma como ele é hoje: no Sambódromo, com as escolas e os temas enredo sobre a história do Brasil e celebrando as grandes personalidades brasileiras”, destaca.

Nos anos 1970, com o investimento financeiro de patrocinadores, a realização da festa passa a ser televisionada para várias partes do mundo. “Com a abertura política, as escolas de samba começam a fazer uma crítica ao governo e a colocar em evidência outras histórias e personagens como as lideranças populares”, frisa o professor.

O historiador ainda destaca a importância cultural de estados fora do eixo Rio-São Paulo para a expansão do Carnaval. “No Nordeste, uma verdadeira usina de ritmos musicais e de estilos de dança, misturando a tradição e a cultura de massa, surge o axé, o forró e outras formas de expressão cultural nos desfiles de carros alegóricos na Bahia e em Pernambuco. Desta forma, o Carnaval se transforma na principal festa popular brasileira no século XX, atraindo milhões de turistas brasileiros e estrangeiros”.