Conferência Marista, Escola de Direito, debateA primeira Conferência Marista sobre Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil acontece no dia 31 de maio, sexta-feira. Em homenagem ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil, o encontro busca conscientizar sobre a violência sexual contra jovens. Psicólogos, psiquiatras e juristas se reúnem no auditório do Prédio 11 do Campus (Avenida Ipiranga, 6.681 – Porto Alegre) para discutir o perfil dos agressores, impactos na saúde mental dos abusados e serviços de acolhimento às vítimas. A conferência é uma parceria entre o Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Escola de Direito da PUCRS. O evento é aberto ao público, gratuito e tem início às 8h. As inscrições são limitas e podem ser feitas até 29 de maio, através do link.

Confira a programação completa:

Credenciamento – 8h

Abertura oficial – 8h20min

Anatomia da violência sexual – Perfil psicológico e comportamental do agressor – 8h30min
Palestrante Lisieux Elaine de Borba Telles 

Perfil do Abusador sob a ótica da investigação – 9h10min
Palestrante Luiz Walmocyr Jr 

Intervalo – 9h50min

Os impactos do abuso sexual infantil na saúde mental do abusado – 10h
Palestrante Maria Lucrécia Scherer Zavaschi

O olhar do Sistema de Justiça à Criança e ao Adolescente Vítima – 10h50min
Palestrante Maria Regina Fay de Azambuja

Painel de perguntas – 11h35min
Mediador Carlos Kremer

Encerramento – 12h

Compromisso com a proteção da vida

Na busca pela garantia dos direitos desses jovens, a Rede Marista conta com o trabalho do Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente desde 2018. O órgão é responsável por ações de formação e conscientização, como debates, palestras e visitas aos órgãos públicos vinculados à proteção infantil. Ainda, elabora materiais com orientações para auxiliar na identificação e resolução do problema. O contato com a equipe do Centro pode ser feito presencialmente, na Fundação Irmão José Otão, no prédio 2 do Campus, através do e-mail [email protected] ou pelo telefone (51) 3205-3107.

 

 

 

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Criança, Abuso, Violência

Foto: Counselling/pixabay.com

O Brasil é o país com as maiores estimativas de maus-tratos contra crianças no mundo. O dado é do estudo The Influence of Geographical and Economic Factors in Estimates of Childhood Abuse and Neglect Using the Childhood Trauma Questionnaire: A Worldwide Meta-Regression Analysis, divulgado na Child Abuse and Neglect, publicação oficial da International Society for the Prevention of Child Abuse and Neglect, vinculada à Organização das Nações Unidas e à Organização Mundial de Saúde (OMS). Foram pesquisados dados de abuso sexual, físico e emocional e negligência física e emocional publicados em cerca de 30 países. “Existe uma relação direta entre o Produto Interno Bruto (PIB) do país analisado e as estimativas de negligência física. Quanto menor o índice econômico, maior a taxa deste tipo de maus-tratos. Apesar do PIB do Brasil não estar entre os mais baixos, o País mostra estimativas muito altas de negligência infantil”, afirma o coordenador do trabalho, professor do Programa de Pós-Graduação em Pediatria e Saúde da Criança e do Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS Rodrigo Grassi-Oliveira. Segundo o pesquisador, a negligência física é caracterizada por atos de abandono da criança, privando-a de alimentos, vestuário e cuidados com a saúde.

Os malefícios futuros para a saúde das crianças que passam por estes tipos de violência são inúmeros, desde um maior risco para doenças mentais e dependência química até doenças metabólicas como diabetes e obesidade. “É preciso haver uma mudança de valores para a sociedade. Se você investir no cuidado parental hoje, futuramente a preocupação e gastos com estes desfechos será menor“, acredita o pesquisador. Para Grassi, o motivo do péssimo resultado registrado no Brasil está na quase ausência de recursos empregados em programas de prevenção da violência contra a criança, além da cultura mais permissiva, que não acredita na gravidade das consequências geradas pela exposição de crianças a situações adversas. Outro motivo é o fato do território ser muito grande, dificultando o controle de recursos financeiros voltados para o tratamento e prevenção de casos de abuso e negligência infantil. O professor ressalta, também, a ineficácia da máquina pública e privada, o número insuficiente de centros de atendimentos às vítimas de violência e a falta de formação adequada na área.

Para ilustrar os resultados, os pesquisadores fizeram um mapa que mostra as estimativas relatadas pelas populações investigadas em cada país. Usando uma escala de cor que ia do vermelho (altas taxas de abuso e negligência), passando pelo amarelo (estimativas moderadas) até o verde (baixos escores) os autores coloriram cada país de acordo com a estimativa de maus-tratos na infância identificada. Na Suécia, por exemplo, as estimativas são reduzidas, assim como em praticamente todos os países da Europa. Já nos Estados Unidos, a cor é a amarela e no Brasil vermelha. Nos resultados encontrados na China, uma surpresa: as taxas de negligência e abuso relatadas são baixas, apesar da OMS identificar o trabalho infantil e a migração como graves problemas. “Acreditamos que a entrevista utilizada para avaliar maus-tratos possa ter inibido muitas pessoas de identificarem situações adversas ocorridas na infância como formas de abuso ou negligência, em virtude dos aspectos culturais. A escala não avalia trabalho infantil e, mesmo que avaliasse, esse poderia não ser interpretado como uma situação abusiva”, afirma. Grassi acredita que os resultados refletem a questão cultural de cada local: “Tudo depende da forma como cada povo educa e cuida de suas crianças”, ressalta.

O pesquisador já trabalha com projetos sobre vitimização infantil há muitos anos e, futuramente, pretende iniciar um diálogo com órgãos governamentais como a Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude, visando a discussão desses resultados. Também planeja iniciar outro estudo, em âmbito nacional e utilizando outras medidas, para aprofundar esses dados. Segundo Grassi, a recomendação da OMS é que seja promovida a capacitação de pessoas para trabalhar na área, possibilitando que as políticas públicas sejam efetivamente colocadas em prática por profissionais habilitados para isso. Para isso, coordena na PUCRS o curso de especialização à distância Abordagens da Violência Contra Crianças e Adolescentes. “A nossa expectativa é de qualificar profissionais com diversas formações, em especial pessoas que trabalham em Conselhos Tutelares e Centros de Atendimento Psicossocial”, afirma. A primeira turma tem aulas desde abril.

 

Metodologia da pesquisa

Os pesquisadores tiveram acesso a resultados já publicados em pesquisas que utilizaram o instrumento chamado Childhood Trauma Questionnaire (CTQ), um dos instrumentos mais importantes na avaliação de maus-tratos no mundo. O teste passou por adaptações em vários países, sendo que a versão brasileira foi adaptada por Grassi, podendo ser aplicado em adolescentes e adultos. O CTQ questiona a frequência com que os entrevistados passaram por situações de abuso e negligência até os doze anos de idade. A partir destes dados, o grupo da PUCRS fez a compilação e análise estatísticas dos dados obtidos em todos os países incluídos no estudo.

Captura de tela do Fantástico com o professor Rodrigo Grassi-OliveiraClique aqui para assistir a matéria sobre o tema, com participação do professor Rodrigo Grassi-Oliveira, veiculada no Fantástico deste domingo, 11 de setembro