Pesquisa

Estudo analisa a saúde de nonagenários e centenários durante a pandemia

quinta-feira, 11 de junho | 2020

Pesquisa busca avaliar o estado de saúde e as condições de vida de nonagenários e centenários durante a pandemiaA pandemia mundial da Covid-19 mudou a rotina de todos, mas impactou especialmente a vida dos idosos, mais vulneráveis à transmissão do novo coronavírus. As pessoas com mais de 90 anos (nonagenárias e centenárias) são a camada da população com maiores chances de desenvolver um quadro grave da doença e, por isso, têm adotado em maior escala medidas preventivas como o isolamento social.  De acordo com dados publicados no periódico Lancet Infect Diseases a mortalidade geral, na China, foi de 0,32% para indivíduos com menos de 60 anos, 6,4% para aqueles entre 60 e 80 anos e 13,4% entre os acima de 80 anos. No Brasil, 77% dos casos são de pacientes com mais de 60. Idade avançada e males como insuficiência respiratória, doença cardíaca, hipertensão e diabetes são importantes fatores de risco.

Mas quais impactos o isolamento tem trazido à vida dos nonagenários e centenários? É o que pretende responder um projeto liderado pelo professor da Escola de Medicina, Ângelo Bós. O estudo, que busca avaliar o estado de saúde e as condições de vida de nonagenários e centenários em Porto Alegre durante a pandemia, é conduzido pelo Grupo de Pesquisa em Saúde Pública e Envelhecimento do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.

Análise em curso

Os idosos que participam da pesquisa são acompanhados pelo grupo desde 2016 e, neste momento, novas investigações estão em curso para avaliar os impactos da pandemia. De acordo com Bós, o principal objetivo é observar os maiores impactos da restrição social, principalmente sobre a saúde física, cognitiva, emocional e nutricional nessa faixa etária, além de identificar possíveis mecanismos que ajudem a melhorar esses problemas.  A pesquisa ainda está em andamento, mas o professor adianta algumas análises: ele explica, por exemplo, que os idosos em acompanhamento estão seguindo a quarentena, mas estão menos ativos em virtude disso.

Outros participantes ressaltam o menor tempo em companhia da família, apesar de se sentirem amparados através da comunicação por telefone ou mensagem. “Muitos já tinham problema com o sono e percepção de memória ruim, mas quando questionados se repararam se a quarentena mudou as condições de saúde, a maioria afirma que não percebe mudanças”, adiciona Bós.  O acompanhamento destes idosos é longitudinal, buscando observar o impacto a longo prazo. A pesquisa integra o projeto Atenção Multiprofissional ao Longevo (Ampal), que recebeu verba do Fundo Municipal do Idoso de Porto Alegre em 2016 e 2018.

Cuidados com a saúde dos idosos 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a importância da manutenção das habilidades funcionais para um envelhecimento saudável, o que implica na relação de uma boa capacidade intrínseca em um ambiente que o favoreça. Ou seja, a avaliação e o manejo das saúdes visual, auditiva, locomotora, psicológica e vital, esta por sua vez, onde a OMS prioriza o cuidado alimentar. Seguindo esse raciocínio, o Ampal faz algumas recomendações aos longevos durante a pandemia:

  • Função locomotora: o sedentarismo é um grande vilão do envelhecimento porque acelera as perdas que ocorrem em alguns componentes do nosso corpo, por exemplo, aumentando as perdas na qualidade e quantidade de músculos. Aumentar ou manter um bom nível de atividade física é essencial para a boa saúde.
  • Contexto alimentar: frequentemente o grupo observa a presença de dentaduras antigas que prejudicam a mastigação e queixas como boca seca e ardência na língua. Além das alterações orais, também verifica-se insuficiente consumo de água e presença de constipação. Com a restrição domiciliar, a diminuição da atividade física também pode prejudicar a constipação, pois além de a mudança na rotina alterar a percepção do tempo, acentua o esquecimento de beber água. Recomenda-se respeitar os horários das refeições, manter a adequada higiene oral, ter horários definidos para beber água e tentar organizar as refeições para a semana.
  • Saúde visual e auditiva: enquanto a restrição domiciliar permanece deve-se manter os ambientes claros, com cores vivas que gerem contraste para melhorar a visualização dos limites dos móveis e sinalizar as beiradas dos degraus para perceber melhor a profundidade. Além disso, recomenda-se tentar intercalar períodos de descanso visual entre longos períodos em frente à tela de TV ou telefone, evitar gritar com os idosos, falar calmamente, mas de forma mais pronunciada.
  • Saúde mental e psicológica: com a quarentena o grupo de pesquisa observou mudanças nas rotinas dos longevos, que reduziram ainda mais a frequência de sair de casa e aumentaram as queixas de memória, que inclusive já eram anteriormente relatadas. Um profissional da saúde, por vezes esquecido, mas que é recomendado pelos pesquisadores é o terapeuta ocupacional, que além de auxiliar na adequação de dispositivos auxiliares, pode reorganizar a rotina diária de forma a agregar atividades prazerosas e estimulantes. O maior tempo livre e a solidão podem ser consequências desafiadoras da quarentena para os longevos. Por este motivo o apoio psicológico é fundamental. O grupo indica que os familiares mantenham contato frequente e que as ligações não sejam apenas inquéritos de saúde, mas um momento de escuta, pois eles têm muito a nos ensinar.

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