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Mistura de espíritos e educação universalista no Fronteiras do Pensamento

terça-feira, 19 de junho | 2018

Foto: Luiz Munhoz/Fronteiras

Foto: Luiz Munhoz/Fronteiras

O que é identidade? Mulher, marroquina, muçulmana, filha, mãe e esposa seria uma identidade? Não, não é isso que define uma pessoa. Com essa reflexão, a escritora e jornalista Leïla Slimani abriu a segunda noite do Fronteiras do Pensamento 2018, em 18 de junho.

Na conferência Quem eu sou: identidade, cultura e sociedade, a vencedora do Prêmio Goncourt 2016, um dos mais importantes da França, falou sobre família, raízes, educação e sua trajetória, começando pela história de seus pais, nos anos 40, no Marrocos. Seu pai era de uma cidade tradicional, filho de comerciante e de uma dona de casa que não havia estudado. Graças a seu avô, seu pai estudou em uma escola francesa, aprendeu a história da França e se familiarizou com os valores iluministas. Do lado materno, sua avó, que era da pequena burguesa da Alsácia, casou com um argelino, seu avô. “Meus pais se sentiam marginalizados, não pertencentes a nenhuma comunidade. E eu sou o produto disso”, conta.

Da mesma forma, Leïla foi educada no sistema francês, o que a posicionou como estrangeira, como europeia dentro do seu país. Na adolescência, Leïla se sentia diferente das amigas, seus pais não praticavam nenhuma religião, não transmitiam sentimentos patrióticos e ela não compreendia, pois queria pertencer a um grupo. “Na época eu não percebia que meu pai havia me dado armas para ser uma mulher livre”, reconhece ao exaltar a mistura de espíritos dos seus avós e seus pais e a educação universalista que recebeu.

Identidade

Leila Slimani

Foto: Luiz Munhoz/Fronteiras

Nascida na década de 80, Leïla mora na França há 20 anos e conta que possui uma relação ambígua com o país. De um lado, valoriza a educação e a liberdade, de outro, sente rancor. “Minha educação me mantinha distante de meu país. Falávamos árabe apenas com empregados e comerciantes na rua. Em casa, falávamos apenas francês. Eu detestava compreender bem a cultura ocidental”, lembra.

Aos 18 anos foi estudar em Paris e gostava de deixar claro para os franceses que era uma estrangeira. Na França, não era nem imigrante nem estrangeira. “Eu conhecia o país, mas eles não me conheciam.” Com o tempo, tornou-se mais francesa que esperava. Casou, teve um filho e se integrou. Após concluir os estudos, atuou como repórter e viajou muito ao Marrocos a trabalho.

Leïla critica o fato de pessoas de diferentes etnias se sentirem obrigadas a agir de ser certa forma para serem aceitas. “No mundo ocidental, um árabe gentil tem os cabelos menos crespos e a pele menos escura.” E conta que eventos históricos a fizeram entender sua situação complexa com a identidade. “Após os atentados de 2011, aos olhos de muitos me tornei muçulmana, sem ter dado qualquer sinal com relação à religião”, diz.

A conferencista se diz uma escritora sem território, sem conexão profunda com a terra ou raízes sólidas e destaca que uma identidade com contornos muito fixos só cria desenhos sombrios. “Minha herança antes de tudo são valores. Tive imenso privilegio de poder me inventar. Nunca meus pais me disseram como eu deveria me comportar ou me vestir por ser mulher, marroquina e muçulmana. O meu sentimento é de pertencer a uma grande família: a humana”, garante.

Literatura

Leila Slimani

Foto: Luiz Munhoz/Fronteiras

Expoente da literatura, Leïla publicou o livro Dans le jardin de l’Orange em 2014, contando a história de uma ninfomaníaca. O livro foi um dos finalistas do Prêmio de Flore, na França. Em 2016 lançou Canção de ninar, que conquistou o Prêmio Goncourt. Em 2017, publicou o livro de não ficção Sexe et Mensonges, sobre a exploração da opressão sexual no Marrocos, baseado em depoimentos de diversas mulheres. “Foi acusada de traidora pelo seu país pode ter criticado o mundo muçulmano”, lembra. Nos seus livros, dá pouca importância para a identidade étnica dos personagens. “O que eles fazem e sentem é o que eles são naquele momento”, esclarece.

Sobre Leïla Slimani

Conquistou o Prêmio Goncourt em 2016 com o livro Canção de Ninar, que vendeu mais de 600 mil exemplares em 36 países. O prêmio é um dos mais prestigiados de língua francesa. Atuou na revista Jeune Afrique e chegou a ser presa ao cobrir a Primavera Árabe. Em 2017, recebeu do presidente da França Emmanuel Macron o convite para ser representante para assuntos de francofonia.

Fronteiras do Pensamento

A PUCRS é parceira cultural do evento, que neste ano tem o tema O mundo em desacordo – democracia e guerras culturais. Professores, técnicos administrativos, mestrandos, doutorandos e alumni (diplomados) da Universidade contam com 50% de desconto para as conferências. Podem também comprar ingresso para um acompanhante com o mesmo desconto. Os diplomados devem portar a carteira Alumni na hora da compra. É obtida na sala 109 do prédio 1, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30. Contatos: Rede Alumni. Os estudantes de graduação têm meia-entrada, se portarem carteira de identificação estudantil, conforme legislação. A próxima conferência será em 2 de julho, com a crítica de arte e escritora francesa, Catherine Millet.

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