Institucional

Fragilidades na cidadania e na democracia pautam as falas de Lilla e Pondé no Fronteiras

terça-feira, 20 de novembro | 2018

2018_11_20-fronteiras_do_pensamento

Mark Lilla. Foto: Luiz Munhoz

O perfil individualista das novas gerações norte-americanas, que não se engajam em causas coletivas ou na política e não se veem como cidadãos, preocupa o cientista político norte-americano Mark Lilla. A democracia em tempos de algoritmos nas mídias sociais, que tendem a mostrar candidatos nas eleições como produtos a serem consumidos por eleitores que só querem ouvir o que lhes agrada é alvo de crítica do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé. Essas manifestações estiveram presentes nas falas dos dois conferencistas que fecharam o ciclo 2018 do Fronteiras do Pensamento, que em 2018 foi pautado pelo tema central O Mundo em Desacordo: Democracia e Guerras Culturais.

A noite de 19 de novembro foi dedicada à PUCRS, apoiadora cultural do projeto. Antes e após a conferência foram promovidas ações de relacionamento no Salão de Atos da UFRGS. A saudação musical foi oferecida pelo Instituto de Cultura, com a exibição da pianista Mari Kerber e do músico Ale Ravanello, diplomado em Direito pela PUCRS. Houve também a exibição do vídeo Histórias de Transformação PUCRS e, ao final, os participantes receberam a edição especial da Revista PUCRS, comemorativa aos 70 anos da Universidade. A atividade foi prestigiada pelo reitor, Ir. Evilázio Texeira, o pró-reitor de Graduação e Educação Continuada, Ir. Manuir Mentges, o pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, Marcelo Bonhemberger e assessores da Reitora.

Mark Lilla e o resgate da cidadania

Fronteiras do Pensamento, Mariane Kerber, Ale Ravanello

Mari Kerber e Ale Ravanello abriram a noite com apresentação musical / Foto: Bruno Todeschini

Em sua primeira passagem pelo Brasil, Lilla abriu sua apresentação traçando um histórico dos principais fatos que impactaram o mundo no século 20 e como repercutiram na democracia contemporânea. O cientista político destacou que normalmente são recordados fatos negativos, como as duas grandes guerras e as consequências. No entanto, sinalizou com questões positivas como o movimento de solidariedade a partir dos anos 1950, inspirados nas falas do presidente dos EUA Franklin Roosevelt. Isso, segundo Lilla, durou até a década de 1990, acompanhado de uma mentalidade centrada em uma teoria mais liberal, tendo como ícones Ronald Reagan e Margareth Thatcher. “Nos anos 90, o neoliberalismo fazia muito sentido para países como os EUA e a Grã-Bretanha. Esse comportamento gerou uma atomização da sociedade”, apontou.

Lilla destacou um saudosismo em relação às causas que mobilizaram a segunda metade do século passado. “Considero a luta pelos direitos de negros e gays um dos melhores momentos da história da América. Eles tiveram de convencer uma América branca e masculina a aderir às suas propostas”. Após isso, houve um deslocamento do sentido de solidariedade para a autodefinição, refletiu. O conferencista crê que a mudança de pensamento gerou um neoliberalismo social, afetando o comportamento de jovens. “Temos hoje uma esquerda radical americana, que se opõe ao neoliberalismo tradicional e cria o neoliberalismo social”. Ele criticou que as novas gerações são mais isoladas, egoístas, não se casam e pensam apenas nos próprios problemas. “Estamos nos tornando partículas elementares”, citando Michel Houellebecq.

Para superar, Lilla propôs: “Precisamos redescobrir as virtudes da cidadania. Existe o bem que precisa ser protegido. A única coisa que compartilhamos é a cidadania. Por isso, devemos ser vistos como iguais e enfrentar as forças históricas que minaram a sociedade”, destacou. Ao encerrar sua manifestação, enfatizou: “Democracias sem democratas não duram. Elas decaem para regimes totalitários. Me entristece que o Brasil possa sofrer das mesmas patologias que meu país vive hoje”.

Pondé fala da democracia em tempos de algoritmos

fronteiras do pensamento

Luiz Felipe Pondé. Foto: Luiz Munhoz

Na sequência do norte-americano, o filósofo brasileiro Pondé destacou que “o mais importante do poder é limitar o poder. Nesse sentido, a democracia é o melhor regime”. Ele analisou o cenário atual com base em pesquisa realizada nos EUA mostrando que as pessoas mais politizadas e engajadas tendem a ser as mais intolerantes, diferentemente do que se pode imaginar. Também citou que grande parte dos eleitores pouco pesquisam sobre os candidatos, mesmo com alto grau de instrução. Esse comportamento se reflete nas mídias sociais, onde se proliferam respostas simples para questões complexas. “As pessoas têm praticado política por ressentimento,” lamentou.

Fronteiras do Pensamento

Reitor Ir. Evilázio Teixeira, ao centro, e membros da Reitoria prestigiaram a conferência final do Fronteiras do Pensamento / Foto: Bruno Todeschini

Um dos pontos enfatizados por Pondé é a democracia condicionada aos algoritmos. Ela começa a ficar condicionada à análise dos desejos do eleitor, como produtos comerciais. O filósofo conclui mencionando experimentos para “atenuar os impactos da participação do eleitor”. Citou um recente referendo na Grécia, sobre a situação a adesão ao pacote econômico, no qual a população votou negativamente. No entanto, a Comunidade Europeia relativizou a opinião popular, levando a compreender que a população não entende de economia e, por isso, não é capaz de tratar do tema. No caso do Brasil, referiu a tendência de o Supremo Tribunal Federal legislar, sem que seja um poder representativo. Essa seria uma forma nacional de atenuar a democracia, segundo Pondé, citando o fenômeno chamado de folk theory of democracy, ou mito da democracia.

No encerramento do evento, ao ser questionado sobre o papel da imprensa na atualidade, o filósofo defendeu que “o papel da mídia é de vigilância da liberdade de expressão, de observar as realidades, ser gatekeeper, fazer o filtro. Esse papel fica prejudicado quando ela tenta fazer pregação social e moral”, concluiu.

 

Mais recentes