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Boletim da Desigualdade: pobreza chega a quase 20 milhões de pessoas nas metrópoles brasileiras 

segunda-feira, 08 de agosto | 2022

desigualdade nas metrópoles

Foto: Giordano Toldo

A nona edição do Boletim – Desigualdade nas Metrópoles levantou dados preocupantes sobre a situação da pobreza nas metrópoles brasileiras. Entre 2014 e 2021 a taxa de pobreza subiu de 16% para 23,7%, o que em termos absolutos se traduziu em uma elevação de 12,5 milhões para 19,8 milhões de pessoas. Ou seja, em apenas sete anos 7,2 milhões de pessoas entraram em situação de pobreza nas metrópoles brasileiras. Em relação à extrema pobreza, no mesmo período a taxa mais do que dobrou, variando de 2.7% para 6.3%. Em termos absolutos, foi um aumento de 2,1 para 5,2 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza nas nossas grandes cidades.

O estudo é fruto de uma parceria entre a PUCRS, o Observatório das Metrópoles e a RedODSAL. Os dados utilizados são provenientes das PNADs Contínuas anual, (acumulados na 5ª visita), do IBGE, e dizem respeito à renda domiciliar per capita total. O recorte utilizado no estudo é o das 22 principais áreas metropolitanas do país, de acordo com as definições do IBGE. Todos os dados estão deflacionados para o ano de 2021, de acordo com o IPCA.

O Boletim Desigualdade nas Metrópoles trabalha com as linhas de US$5,50 PPC para pobreza e US$1,90 PPC para a extrema pobreza, assim como definidas pelo Banco Mundial. Em valores mensais de 2021, a linha de pobreza é de aproximadamente R$465 per capita e a linha de extrema pobreza é de aproximadamente R$160 per capita. Segundo Andre Salata, professor da PUCRS e um dos coordenadores do estudo, os efeitos da pandemia da Covid-19 agravaram uma situação que já vinha piorando há alguns anos:

“A piora da maior parte dos indicadores sociais começa entre 2014 e 2015, e a pandemia age então sobre um patamar de vulnerabilidade que já estava muito elevado mesmo para os nossos padrões.” 

Renda cada vez mais baixa

boletim desigualdadeÉ o caso, por exemplo, do que ocorre com a renda dos mais pobres. Em 2014, os 40% mais pobres de nossas regiões metropolitanas tinham renda média de R$515. Cinco anos depois, em 2019, essa cifra havia caído para R$470. E dois anos depois, já no contexto da pandemia, em 2021, aquela média havia chegado a R$396. E um padrão semelhante se revela quando analisamos cada região metropolitana separadamente. Entre 2014 e 2021 a renda dos mais pobres cai de R$535 para R$404 no Rio de Janeiro, de R$354 para R$246 no Recife, e de R$714 para R$581 em Curitiba.

Leia também: Boletim Desigualdade nas Metrópoles aponta 25% da população em situação vulnerável

Somente na região metropolitana de São Paulo – a maior e mais importante do ponto de vista econômico -, o número de extremamente pobres passou de 381 mil para mais de 1 milhão de pessoas entre 2014 e 2021. Na região metropolitana de Salvador, no mesmo período, o número de extremamente pobres salta de 103 mil para 483 mil. E no Rio de Janeiro o aumento foi de 336 mil para 926 mil.  

Segundo Marcelo Ribeiro, professor do IPPUR-UFRJ e um dos coordenadores do estudo, “mesmo num momento de crescimento da média de renda geral, como aquele que se deu entre 2015 e 2019, a tendência foi de redução ou estagnação da renda dos mais pobres, o que significa que apenas os mais abastados se aproveitaram do aumento de recursos naquele período”. Por essa razão, conforme também mostra o estudo, a tendência tem sido de aumento das desigualdades nos últimos anos. Tendência esta que foi agravada durante a pandemia.  

Aumento na desigualdade e queda nos rendimentos

Em 2014, o coeficiente de Gini – quanto maior o seu valor, maiores são as desigualdades de rendimentos – para o conjunto das regiões metropolitanas era de 0,538. Em 2019 ele havia subido para 0,562. E em 2021, já no período de pandemia, chegava em 0,565. Se considerarmos somente a região metropolitana do Rio de Janeiro, o coeficiente de Gini saltou de 0,518 para 0,581 entre 2014 e 2021. Em Natal o Gini variou de 0,529 para 0,588. E em Florianópolis foi de 0,453 para 0,484 no mesmo período.

“Estas são as desigualdades que vemos no dia a dia, em nosso cotidiano. São verdadeiros abismos sociais que podem se revelar num trajeto de menos de 15 minutos em muitas de nossas cidades, e que se tornaram ainda mais graves ao longo dos últimos anos, como mostram os dados”, pontua Salata.

desigualdade nas metrópoles

Foto: Giordano Toldo

Como efeito da pandemia, não somente as desigualdades aumentaram como a média de rendimentos caiu e atingiu os menores valores da série histórica. Se em 2019 o rendimento médio era de R$1.935, em 2020 ele havia caído para R$1.830, e em 2021 chegava a R$1.698. No Distrito Federal, a renda média caiu de R$2.784 para R$2.476 naquele período. Na região metropolitana de Recife a queda foi de R$1.593 para R$1.079. E em Porto Alegre foi de R$2.218 para R$1.947.

“A pandemia gerou o pior cenário possível, com queda brutal da média de renda e aumento significativo das desigualdades. Isso significa que a população das nossas metrópoles está, em geral, mais empobrecida, e os recursos mais concentrados entre os estratos mais altos. A consequência esperada e mais palpável disso é o aumento da pobreza e da extrema pobreza”, afirma Marcelo Ribeiro.

O estudo também mostra que os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre indicadores de pobreza e desigualdades se fizeram sentir a partir de 2021, quando aumentaram abruptamente. Entre o final de 2020 e o início de 2021, segundo os dados do estudo, a taxa de pobreza aumenta rapidamente de 19% para 24,7%, e a extrema pobreza sobre de 4,1% para 6,7%. Segundo Andre Salata, “a piora súbita dos indicadores de pobreza e desigualdades se dá logo no primeiro trimestre de 2021, justamente quando o governo federal decide interromper o pagamento do Auxílio Emergencial, a partir de uma avaliação equivocada da situação.” 

Os coordenadores do estudo enfatizam que uma série de fatores explicam a piora dos indicadores sociais nas regiões metropolitanas brasileiras ao longo dos últimos anos, incluindo o aumento da taxa de desocupação entre 2014 e 2017, a redução da atividade econômica naquele período, a estagnação dos programas de transferência de renda em termos de valores de corte e número de beneficiários, a perda do poder de compra do salário mínimo e, nos últimos anos, o choque da pandemia e o aumento da inflação.

Segundo Marcelo Ribeiro, “diante de um quadro de tamanha gravidade, é preciso agir com urgência no sentido de estimular a criação de empregos e, também, de garantir que o Estado consiga atender aos mais pobres com políticas sociais robustas, bem desenhadas e sustentáveis”. 

Confira na íntegra o “Boletim Desigualdade nas Metrópoles nº 09”. 

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