Ensino

Quem serão os desviantes na comunicação?

sexta-feira, 04 de novembro | 2022

Eneias Brum

Professor Eneias Brum, docente do curso de Comunicação Empresarial da PUCRS / Foto: Divulgação

A convicção de que o mercado de comunicação precisa de mudanças estruturais é uma unanimidade que percebo ao longo de quase duas décadas atuando como estrategista de comunicação. Não foi no surgimento de um aplicativo de vídeos curtos que começamos a discutir o descompasso entre noção acelerada de tempo do consumidor e nossos longos processos produtivos. Não foram os memes e as trends que revelaram as necessidades de adaptações constantes para inserir marcas no cotidiano de consumo. Não foi a cultura do cancelamento que ensinou sobre o quanto os discursos impactam nas vidas e na sociedade. Não foram as soluções tecnológicas omnichannel que introduziram a ideia de que as pessoas devem estar no centro das estratégias.

Enquanto um ciclo de falsas sensações de transformação vai sendo renovado, permanece vivo o desafio central de orientarmos a comunicação pelo que acontece do lado de fora dos escritórios. Ainda somos os mesmos e produzimos comunicação como nossos pais. Agora, com internet rápida, mais possibilidades tecnológicas para formar coletividades, mas ainda sem a inclusão de novas perspectivas e pessoas que desviem verdadeiramente o foco das soluções.

O filósofo francês Edgar Morin defende que pessoas desviantes são fundamentais para enfraquecer estruturas desgastadas. Há décadas, o autor estuda maneiras de reformular os modelos de pensamento em diversas áreas – como a comunicação organizacional e empresarial. Diante de um mundo repleto de estruturas intactas e de novidades tão constantes quanto inconsistentes, ele afirma que reais mudanças de paradigma ocorrem somente em cenários com abertura para diálogo entre diferentes perspectivas, emergência de efervescências culturais produtoras de tensionamentos sociais e existência de sujeitos desviantes: pessoas que vêm de fora dos espaços de poder para contestar, publicamente, os padrões que orientam práticas cotidianas.

Para que o mercado da comunicação seja realmente renovado, é hora de questionar se estamos abrindo espaço para novas pessoas, autoras de novas perguntas que provoquem mudanças culturais e sociais. Quem serão as pessoas lembradas como as desviantes dos rumos da comunicação?

Texto originalmente publicado no jornal Zero Hora.

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